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Jovens "Nem-Nem" por preguiça e falta de oportunidade.

25.06.18 | João Massena

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Jovens “nem-nem”. O artigo da revista Sábado mete um ponto de interrogação no fim do titulo, eu retirei-o.

O jovem nem estuda nem trabalha, nem é tão jovem quanto isso…

No outro dia escutava Ricardo Araújo Pereira a dizer que o essencial continua a ser a luta de classes.

Eu acho que não até porque nós classificamos tudo, até numa mesma empresa, por ofício, e o “nosso” grupo é sempre muito melhor que o outro. Portanto a luta de classes será a mesma que a luta da vida contra a morte.

Digo que a luta não deve ser feita? Não, nada disso. Digo que é uma luta que não tem fim ou durará tanto enquanto o Homem existir.

Só que essa luta de classes, curiosamente criou uma tendência, não de tornar a sociedade como um todo mais justa, mas uma tentativa de fazer com que a descendência fosse de uma classe superior.

A geração que começa a fazer descendência em torno do 25 de Abril esforça-se para que os seus filhos resultem em doutores ou engenheiros. Isso é tão obvio quando a funcionalidade das universidades privadas que ao invés de primarem por uma qualidade superior face ao que é publico, valem-se do facilitismo de acesso a troco de chorudo pagamento.

Logo depois do 25 de Abril passamos a convergir com fundos comunitários. Estes fundos vieram reforçar uma tendência que já existia, as pessoas deixaram de trabalhar no campo e nos derivados do campo, na pesca e indústrias da pesca. Transferiram-se para a indústria e sobretudo para os serviços. Portanto temos uma geração antes do 25 de Abril em êxodo rural, uma que se segue que é afastada dos sectores primários pelos fundos de convergência, estas duas a criar filhos para serem e terem mais do que eles foram, para serem doutores e engenheiros.

E para que isto funcionasse perfeitamente, uma quantidade relevante de imigrantes a fugir das guerras civis das ex-colónias que trabalham clandestinamente e a troco de quase nada.

Em 2011 a força laboral consistia em cerca de 5.5 milhões de pessoas. Desde a crise, partiram cerca de 600 mil pessoas em idade de trabalho e aqui podemos ainda somar aqueles que estavam cá de forma menos legal e que ou regressaram aos países de origem ou avançaram para outros com prometessem melhores condições.

E nisto chegamos aqui, uma geração a quem sempre lhes foi prometido muito mais, o céu seria o limite, que todo o percurso até à idade adulta foi amplamente facilitado, que foi perdendo, até pelo exemplo dos cuidadores, a ideia de trabalho e que acha que há trabalhos que não são dignos da sua pessoa.

 Ao mesmo tempo estamos numa época que o empregador pede muito para pagar muito pouco, mesmo para o que é mais básico, já pede características especiais e exige, normalmente, experiência.

Esta geração, muito mais independente e aventureira que as anteriores, na falta de melhor por cá, segue para outras latitudes e é verdade que muitas vezes vão fazer o que não fazem cá, mas a ganhar muito mais do que ganhariam cá a fazer o que por cá considerariam um trabalho normal.

Isso é óbvio porque na primeira década a emigração cifrava-se na casa das duas dezenas de milhar por ano, o ano passado, apesar da recuperação económica e da descida do desemprego contámos mais de 80 mil emigrantes e inverter esta linha não será fácil. “O meu primo está na Suíça, numa fábrica de parafusos e ganha 3000 euros por mês e ainda ganha outro tanto a fazer umas “bricolas” ao fim-de-semana e diz que arranja lá um trabalhinho para mim…”

Isso torna-se obvio quando o Governo quer aplicar medidas para incentivar a entrada de 75 mil imigrantes por ano, quando os empregadores não conseguem encontrar pessoas para trabalhar.

Por um lado, perdeu-se a força laboral para trabalho ou menos qualificado ou nos sectores primários, tão porque se cultivou a ideia de que estávamos talhados para mais que isso como as habilitações foram artificialmente empoladas para que os números sociais fossem mais consonantes com o resto da União Europeia.

Por outro o trabalho especializado passou a ser pago ao preço de trabalhos sem qualificação numa espécie de tentativa de concorrência com a produção chinesa.

Por outro lado, tivemos uma crise que empurrou milhares para porá do país.

Sim, os jovens “nem-nem” nem querem trabalhar nem encontram trabalho à sua medida.

São preguiçosos? Não, só que este país deixou de ser à medida destes jovens. Têm de começar por cima e a ganhar muito bem. E enquanto os pais continuarem a sustentar, continuarão a ser nem-nem.

Obviamente que isto não é uma generalização de uma geração, mas de uma parcela da geração, mas cruzo-me todos os anos com dezenas de estagiários de escolas com cursos de via profissional que são óptimos representantes destes jovens e pior ainda.

Se é uma questão de classes? Claro que não. Apenas uma questão de evolução da sociedade de cada país. Todos os países têm classes, nuns a justiça esbate a diferença, noutros aumentou-se a distância entre ricos e pobres e diz-se que o problema é de classes.

Tenta-se dar uma abordagem psicológica a uma questão sociológica.