Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

lighthouse

Equivalentes de empregados em falta a patrões que os querem despedir

29.07.18 | João Massena

ha-vagas-emprego.jpg

 

 

Cada deita-se na cama que faz.

A última crise veio revelar e agravar uma série interessante de problemas do nosso país, quer financeiros quer de futuro.

Quando era mais rapaz, conheci um sujeito que queria ser engenheiro só que daqueles que trabalha com as mãos na massa. Se assim o disse, melhor o fez e hoje é engenheiro e usa fato-macaco.

Tive um professor que muito mais do que manuais, partilhava a sua experiência pessoal. Dizia ele, numa das aulas, que numa das empresas que trabalhou, TODOS começavam na posição mais baixa da empresa e iam subindo na direcção da posição para a qual foram contratados. O princípio era conhecer todo o processo da empresa de modo a conhecer e reconhecer os problemas da operação.  

 

Portugal é um país que tem questões geográficas. Por um lado, temos a sorte onde nos encontramos, sem vulcões activos, sem estarmos numa zona de furacões ou tornados, relativamente longe do centro dos conflitos, longe q.b. do epicentro da modernidade e igualmente da miséria.

Facto é que ficamos ali naquele ponto que não é 8 nem 80, tentamos acompanhar o 80 e fugir do 8, mas isso causa-nos alguns problemas.

Chegámos a 1974 com um regime que não queria um povo particularmente culto nem moderno. Os nossos passos tecnológicos foram sempre motivados pela necessidade e não como um projecto de futuro. Poderemos considerar as barragens que foram uma resposta à falta de carvão de qualidade durante a 2ª Guerra Mundial.

Em 1974 muda o regime, determinada esquerda facilita a desmantelação da indústria pesada, os campos são abandonados atrás de uma ideia de reforma agrária, o país entra em crise, o FMI intervém por duas vezes e em 1986 entramos para a CEE.

Em 12 anos, tentamos saltar de 1934 para 1986.

A malta da CEE diz “epá, está giro, mas é preciso convergir…” e se em algumas coisas convergimos de facto, noutras criou-se a ilusão de convergência.

A educação do país não é bem como pincelar o país a auto-estradas. É preciso investir na educação desde a base até ao ensino superior e depois esperar que gerações morram para que a percentagem de analfabetismo diminua para níveis sem expressão e dar lugar a uma sociedade com níveis elevados de escolarização.

Ora isto não era fixe para a malta da CEE e, portanto, precisamos aldrabar um pouco a coisa e apareceram logo uns aldrabões que se associaram a troco de algumas patacas.

Inventaram-se formações em regime pós-laboral, mas isso não era suficiente. Alias, muitas delas eram viradas para a informática numa altura que as empresas ainda usavam máquina de escrever e registadora analógica. Alem disso, não é demonstrável em estatísticas de alfabetização.

É preciso mais e como tal, a escolaridade obrigatória subiu ao mesmo tempo que a vida melhorou. Os pais quiseram que os filhos fossem mais e incutiram-lhes a ideia de que podiam ser doutores e engenheiros. Não daqueles que vestem o fato-macaco, mas daqueles do antes-25 de Abril, aqueles que são servidos, mas não servem a ninguém.

A escolaridade obrigatória sobe para o 12º ano.

A coisa não está fácil e criam-se cursos profissionalizantes que facilitam o carimbo no passaporte do 12º ano completo. Ainda não é suficiente e começamos a dar equivalências como se fosse possível equivaler o que não tem equivalência. É como dizer que a terra tem equivalência ao sol.

Não chega para a UE que, entretanto, substitui a CEE. Começam as novas oportunidades. Malta que vai a umas acções de sensibilização e ganha equivalência ao 9º ano, depois pode repetir e ter equivalência ao 12º e a malta que pode saltar do 4º ano para a faculdade no processo de Maiores de 23.

Chegamos aqui, a 2018, com toda uma quantidade de gente que parece que estudou, mas não estudou. Hoje, e porque não há nenhuma diferenciação, muitos vão à entrevista de emprego de 12º sem nunca o terem frequentado, mas como possuem uma equivalência…

Bom, ao mesmo tempo que obrigava a melhoria das qualificações, a CEE criou condições para afastas as pessoas dos trabalhos menos qualificados e essas pessoas realocaram-se nos serviços. Conheço pessoas com a pura vergonha de usar uma farda ou de sujarem as mãos.

 

No fim dos anos 70 não havia problema porque entre os que vinham do interior do país em busca de melhor vida e os que retornavam das ex-colónias que precisavam de trabalho imediato, as necessidades estavam mais do que supridas até porque com as crises de 79 e 81, o emprego não era abundante.

Com os anos 80, tudo melhorou, sobretudo com os fundos de convergência. Os patos bravos enchiam-se, as classes baixas subiam para a classe média e a mão-de-obra desqualificada ou que era qualificada, mas por interesse de folha de pagamentos de ordenados passava a desqualificada, era assegurada por refugiados das ex-colónias agora em guerra civil.

Trabalhadores ilegais era o que não faltava e os menos qualificados ou acompanhavam o valor de trabalho ilegal ou formavam-se com equivalências.

Anos 90, os imigrantes das ex-colónias foram substituídos por imigrantes do leste da Europa e brasileiros. Os angolanos foram regressando a Angola, outros ficaram como classe média, e os que vieram, são sobretudo das classes mais elevadas, os novos compradores das avenidas nobres de Lisboa.

 

Já antes de 2011 se falava na crise da construção civil.

A construção civil é ou tem sido uma porta de entrada para imigrantes ou sem qualificação ou com qualificação, mas que não falam português e aquela é a entrada mais fácil no mercado de trabalho.

Com a crise de 2011 tudo se tornou mais claro.

Quem é imigrante já não olhou para Portugal como destino. Os que cá estavam, apontaram armas e bagagens para sítios mais confortáveis e outros, muitos outros, regressaram aos seus países de origem. De lembrar que em 2011 Temer ainda não tinha tomado o poder de assalto e muitos brasileiros regressaram ao Brasil. Talvez hoje não o fizessem…

Em 2011, Pedro Passos Coelho criou condições para imigrantes e emigrantes. Portugueses e estrangeiros que por cá residiam, todos foram partidos. Uns a fazerem parte das estatísticas e outros nem tanto.  Foi muita gente e se falar em mais de 1/10 talvez não esteja a exagerar.

O PSD e o CDS-PP facilitaram a vida ao patronado e ofereceram emprego low-cost como se esse fosse o problema do país ou a sua salvação.

Alias, facilidade no despedimento e a luta contra o aumento do SMN foram as bandeiras do patronato em Portugal.  Já o Governo fez mais ou menos o mesmo e replicou a prática do privado, congelar salários e carreira.

 

Facto é que a ideia de crise passou e a crise em si tenta também passar, só que temos um problema: falta gente.

Temos 7,3% de analfabetos e 22,4% da população apenas com o 1º ciclo.

Sabendo que 28% da população tem mais de 60 anos, podemos extrapolar que é nesta faixa etária que encontraremos a população com escolaridade mais baixa, ou seja, são sobretudo pessoas já reformadas ou que estarão reformadas a curto prazo. É relativamente fácil encontrar pessoas desta idade em trabalhos físicos de mão-de-obra não especializada. Estes a cada ano que passa, são cada vez menos. Os imigrantes, de forma geral foram-se.

Sobra a malta que estudou e a malta que equivale a ter estudado, mas não estudou e o patronato passou o tempo todo a dizer que o trabalho, regra geral, não tem especialização, ao ponto de um engenheiro dos nossos dias, ser engenheiro, fiscal de obra e secretário. Um segurança, é segurança, estafeta, porteiro, recepcionista, telefonista…

E os salários, ficaram-se pela mão-de-obra não especializada.

 

Hoje, quando alguém oferece um emprego cheio de requisitos académicos e de experiência profissional, depois apresenta um salário para mão-de-obra não especializada e para 1ª emprego, é obvio que o sujeito vira costas à proposta.

É obvio que o sujeito que tem equivalências quer um emprego e não um trabalho.

É obvio que o sujeito, que hoje tem 30, mas 30 são os novos 20 e ainda vive com os pais, não tem pressa e pode recusar a escravatura.

É obvio que o sujeito que estudou ou teve equivalências, tem um primo, um amigo ou um conhecido que foi obrigado a emigrar e que agora o desafia para também ir para outros paralelos por um ordenado melhor.

É obvio, portanto, que nesta altura, não há mão-de-obra para os empregos e mais do que os empregos, para os salários que por eles se oferecem.

Prevejo que a médio prazo, as profissões que faziam parte das classes mais baixas da sociedade, serão tão bem ou melhor pagas do que profissões que carecem de cursos superiores.

O tipo que recolhe lixo começa a ser mais importante do que um engenheiro. Engenheiros há muitos, já quem queira recolher o lixo…

 

Este é o resultado prático dos últimos 80 anos em Portugal, onde primeiro não se quis ensinar nada e depois dissemos lá para fora que já todos sabíamos tudo, mas afinal não sabíamos grande coisa.

E isto é curioso porque vivemos num país que quer falar mal de imigrantes como os países mais a Este, a reclamar que a falta de emprego é motivada pelos imigrantes, que a criminalidade é culpa dos imigrantes, mas depois, e na verdade, não há quem trabalhe e os patrões, sem ter quem trabalhe, querem facilidade para despedir…

 

Enfim, é o país que temos, recheado de gente que tem dificuldade em pensar num futuro para lá do seu umbigo.

 

https://www.sapo.pt/noticias/economia/falta-de-mao-de-obra-afeta-mais-empresas_5b5af901b47643a876077f00