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Ditadura da liberdade

30.06.18 | João Massena

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Numa passagem de olhos pelo facebook, aproveitando ser o dia das redes sociais, deparo-me com um comentário de Nuno Markl a um artigo da revista Vice.

O que ele diz com muitas letras é que as pessoas deixaram de ter senso e espírito critico. Espírito critico no sentido de interpretar e compreender para alem do obvio, porque criticar é o que fazem mais.

E acompanho Markl. Nicole Clark, presumo que não seja parente de Clark Kent, que assina o artigo, diz logo no inicio que sabe o que é ironia, mas ironia do destino, escreve um artigo inteiro onde descreve a sua incapacidade de saber o que é ironia. Pior que isso, a incapacidade de compreender que Os Simpsons são uma caricatura da sociedade e que ela faz a leitura de um argumento que não é propriamente recente, e ainda bem. Ela própria assume nem saber que os Simpsons continuavam a produzir, achou que restavam apenas gifs para enviar no whatsapp. A jovem viu 11 episódios (1,7%), o mais recente da 8ª temporada de 1997, de um universo de 39 temporadas, de 639 episódios.

Poderia dizer que não gosta do formato, do estilo de ironia, da piada. Compreenderia perfeitamente porque nunca gostei de filmes do Bud Spencer. Nunca achei cómico aquele tipo de comedia a puxar ao desenho animado, muito violento, mas que não mata. Qual é a piada, pergunto eu. Mas aceito que achem ou tenham achado piada. Na década de 90 achava a série do MacGyver fantástica. Hoje, olhando para a mesma série original, acho-a com pouco sal.

 

Mas hoje as coisas estão extremadas de tal ordem que uma pessoa já não consegue ser “normal”, um que lutam contra o racismo e outras discriminações, acabam por fazer o mesmo papel em sentido inverso.

Vieram os nazis e disseram que há um modelo de pessoa correcto e que iam plantar o planeta com a raça ariana. Vieram os comunistas e disseram que nós já somos todos iguais e não podemos ter ideias diferentes. Hoje há uns tipos que dizem que devemos aceitar tudo ao mesmo tempo que nos moldam para sermos uma coisa sem forma, sem pensamento, sem juízo critico, sem piada, sem cor, sem nome, sem género, na verdade sem existência…

 

Hank Azaria, que para quem não sabe dá a voz a Apu, o indiano dono de uma loja de conveniência n’Os Simpsons, foi esmagado pela horda do politicamente correcto e nem sabe bem o que fazer à vida. Isso é visível na luta interna que faz quando o tema lhe é abordado por Stephen Colbert.

Só falta ajoelhar-se, pedir desculpa por ser actor e representar outras coisas que não ele próprio, de fazer parte de uma série que é uma sátira ao nosso estilo de vida, que goza connosco enquanto sociedade e que curiosamente, a fazer piadas grosseiras, acaba por acertar na realidade como no caso da eleição de Trump.

 

 

Vivemos hoje numa luta entre dois modelos: populismo e politicamente correcto.

Toda e qualquer ponderação, sobretudo sobre minorias, ou cai na classe do populismo, sobretudo quando ataca essa minoria, ou do politicamente correcto, sobretudo quando defende essa minoria.

Esta questão nem sequer é coisa recente, a diferenciação entre a árvore e a floresta.

Há uma passagem da bíblia que gosto de a tomar em diversas medidas, para diversos debates. É o momento que Deus decide terraplanar Sodoma E Gomorra porque é terra de impios, mas manda salvar Ló. Ló também era suposto ter morrido, mas por obra do acaso safou-se. Como?

Deus manda lá um par de anjos e Ló, sentado à porta de Sodoma vai ter com eles e diz qualquer coisa do estilo “ó, meus senhores, o melhor é abrigarem-se e minha casa de noite, senão pode-vos correr mal. A malta daqui não gosta de forasteiros”.

Os anjos insistem em dormir na rua, mas heis que aparecem “sodomeses” a querer tratar da saúde dos anjos. NA confusão do desacato os anjos acabam na casa de Ló e como Deus acabou por achar um homem porreiro para com os anjos, ordena estes para dizem-lhe que ele, com a mulher filhas e genros, partam para outras paragens que ali, os que ficassem iriam morrer.

Ló que afinal era mais piedoso que Deus, regateia a vida dos justos perante Deus. “Então e se nesta cidade existiram 100 justos? Morrem com os impuros?” Deus diz que se salvam todos em nome dos justos.

E se forem 50?

Salvam-se todos em nome de 50 justos.

E se forem 10?

Salvam-se todos em nome dos 10 justos.

Os fiscais de Deus não encontraram 10 e mandou terraplanar as cidades, não sem antes dizer a Ló que não podia olhar para trás.

A mulher de Ló que representa o curioso e que dá a dica para escutar e obedecer sem fazer perguntas, olhou e transformou-se numa estátua de sal, o que nem era mau já que os soldados romanos eram pagam em sal, daí hoje dizermos que ganhamos salário. Ló perdeu a mulher, mas ficou rico.

 

Bom, quase me perdia no argumento. Hoje em dia, mesmo que seja “todos menos um”, não nos podemos referir ao grupo como sendo um grupo porque há lá um que noutros tempos era a ovelha negra, hoje é o que safa o grupo. Mas isto só funciona para o negativo porque para o positivo, a ideia de grupo é SEMPRE bem-vinda.

Até tenho medo de dar exemplos…, mas vá lá. Considerem que são exemplos simples e não representam o meu pensamento.

Há uns anos, estava na moda a música cigana como era o caso dos Gipsy kings. A música cigana passou a ser uma coisa porreira e generalizou-se a música cigana. Não apareceu ninguém a dizer que a música produzida pelo Manuel de Freixo de Espada à Cinta era uma bela mentira que nem voz nem guitarra.

Quando alguém diz “os ciganos vivem quase exclusivamente de subsídios” (de André Ventura), aparece logo alguém a dizer que Carlos Miguel também é cigano, presidente da CM de Torres Vedras e cumpre perfeitamente as suas funções, logo, generalizar os ciganos é errado.

 

Não apareceu ninguem a dizer "bom, esta comunidade tem problemas conhecidos, não podemos nem generalizar nem ignorar. É preciso analisar e tomar as medidas que forem adequadas e ajustadas para melhorar as condições da comunidade da etnia cigana e da sociedade em geral"

E não apareceu porque mediar não dá votos porque não agrada nem a gregos nem a troianos. 

 

 

Neste vídeo, da série CSI Miami da CBS, transmitida em Portugal pela Fox, que gentilmente me permitiu recortar estes 40 segundos e usá-los desde que não ganhe dinheiro com isso, Frank Tripp, o polícia de giro, meio bronco, diz que o cubano, com tanto tempo a viver nos EUA já podia ter-se adaptado melhor ao país de acolhimento. Representa o populismo.

Eric Delko faz o papel duplo, por um lado de representante hispânico da minoria, por outro do investigador culto e justifica que o senhor, em stress e a jeito de morrer, está lá preocupado com adaptações e acaba ainda assim, apontando o dedo a Frank Tripp a dizer-lhe que está a atacar a vítima em vez de a defender. Representa os defensores da justiça, os progressistas, a liberdade, defensores das minorias…

Horatio Caine é o líder na suposta inteligência, na experiência e na ponderação. Representa o politicamente correcto.

Não dá razão a um ou a outro, apenas lhes diz que ali não é o local de debate.

Frank Tripp no fim do episodio estava lá para ajudar o senhor em apuros e o comentário dele foi “ao fim de 30 anos, não podia estar já mais bem ajustado? Não podia falar já inglês? “

Não há racismo, apenas uma questão pertinente sobre quão integrado está o cidadão para receber a cidadania, ou seja, para passar a ser não só residente como cidadão de um país.

Há algum conjunto de pressupostos ou a sua existência e o cumprimento de uma vida de acordo com a legislação é suficiente?  Bom, mas isso ficará para considerar noutro dia.

 

Hoje reforço apenas que a liberdade está a cair pela força dos que lutam de forma extremada pela liberdade. Deixou de ser uma luta pela liberdade para ser uma luta pela “minha visão de liberdade” e são coisas diferentes, muitas vezes excessivamente diferente.

Na Rússia soviética todos eram livres de falar e agir de acordo com a liberdade instituída. Quem não exercia essa forma de liberdade, era encaminhado para a Sibéria para arrefecer as ideias.