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Coitado do patrão

07.06.18 | João Massena

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Antes do 25 de Abril, os portugueses viviam, de forma geral, em miséria. Quem vivia no interior ou emigrava porque fugia à guerra colonial ou migrava para as cidades do litoral em busca de mais oportunidades, de um futuro melhor. E assim se fizeram as primeiras barracas e assim nasceram os bairros de lata.

O 25 de Abril veio mudar tudo e sobretudo a CEE e os seus fundos de convergência que muito jeito deu a muito pato bravo.

Quem emigrou, de forma geral não regressou. Os portugueses que viviam nas barracas viram as suas vidas melhoradas e foram substituídos por imigrantes sobretudo das ex-colónias.

Quem era pescador e agricultor, passou a trabalhar no escritório.

Trabalho de musculo deixou de ser normal para os portugueses.

Os portugueses não passaram a ganhar mais por isso, mas ficaram com mais estatuto. O fato-macaco já não lhes serve ainda que sejam mão-de-obra não-especializada e mesmo que sejam, recebem como não sendo.

Em 2011 a coisa voltou a mudar.

Os imigrantes voltaram a fazer as malas. Uns voltaram aos países de origem, outros que já tinham nacionalidade portuguesa, avançaram para dentro da UE, para países com outra condição. A franja daquela malta que nos anos 80 deixou os campos e os mares, mas que chegou aos nossos dias com pouquíssima formação e pouca escolaridade, está agora ou na reforma ou em vias de lá chegar.

Os jovens imigraram, jovens que desta feita já levaram consigo mais e melhor formação.

Em 2011 um trabalhador que pedisse um aumento tinha logo a resposta: “está a ver aquela pilha de papéis ali em cima? São currículos. Gente que quer vir trabalhar por menos do que tu ganhas…”.

Em 2018 não vou dizer que crise acabou porque não acabou. Está um pouco melhor em Portugal, mas o mundo está meio esquisito e a todo o momento a situação pode inverter-se.

Mas em 2018, a taxa de desemprego melhorou muito, a rede de contactos externa ampliou-se com todos os que saíram entre 2011 e 2015 e o empregador continua a achar que está em 2011, oferecendo o SMN como se estivesse a ser muito gentil com tal oferta.

Fica até ofendido quando é rejeitado.

Em 1996 fui a uma entrevista de emprego. Salário mínimo e sem subsídio de refeição porque havia refeitório. Não tinha automóvel na altura e tinha de apanhar um autocarro e dois comboios para lá chegar. Tinha de sair de casa por volta das 5 da manhã e chegar quase às 23 horas para fazer de 35 minutos de automóvel. O salário era o mínimo e metade iria em transportes. Obviamente que recusei. Não era trabalho, era castigo.

Ultimamente tenho visto muito disto, alias, estou a escrever agora porque vi hoje precisamente algo semelhante.

Um tipo que oferecia um emprego assim (vou eliminar partes identificativas):

“Procuro Administrativo para Loja ***** Lisboa.

Condições:

- Horário 9h:30/18:30
- Conhecimentos SAP
- Experiência Lojas ****
- Experiência Administrativa 
- Salario Base + Sub. Alimentação + Comissões

Interessados Enviar CV para ****************”

 

 

Alguém interessado fez algumas questões que foram confirmadas pelo promotor da oferta de emprego:

Ora nos detalhes acresce fins-de-semana, full time e horários rotativos. Isto para os 580€/mês.

Vamos lá a ver, um salário de 580€ mensais é uma baseline, é o mínimo, é o que se possa oferecer a uma profissão sem precisar de especialização, a um trabalhador sem experiência, em primeiro emprego e sem formação.

A partir daqui, tem de ser sempre a somar de uma forma ou de outra.

Queres conhecimentos de SAP? Tens de pagar.

Queres pessoa com experiência em várias áreas? Tens de pagar.

Queres algo para lá de um horário “normal”? Tens de pagar.

Senão a vergonha é de quem quer meter alguém com valências e pagar-lhe o mesmo que fosse um miúdo com 18 anos, com 9º ano de escolaridade, em primeiro emprego, para distribuidor de publicidade.

 

Obvio que a resposta do promotor foi a inversa. O fulano que rejeitou é que é mau, que não quer trabalhar e acrescenta uma hashtag #geracaocansada

 

Não é geração cansada, é toda uma classe laboral em idade activa que chega aqui a sentir-se explorada pelos Governos, pela banca, pelas entidades patronais…

 

Queres quem trabalhe? Paga, porque andares a meter fotos nas redes sociais a viajar pelo mundo à custa de ordenados de miséria…

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