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lighthouse

A Suiça é neutra até na Pastelaria Suiça

28.06.18 | João Massena

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Há uns tempos demoliram uma garagem no campo das cebolas a propósito das obras de requalificação daquela zona.

Logo apareceu um bando de gente a defender o dito edifício, advogando que tinha uma arquitectura própria, um dano irreparável para a história da cidade, uma perda inestimável. Direi eu que todo o edifício tem uma arquitectura própria. Aquele era apenas um empilhar de tijolo de burro sem nada de especial, uma garagem de outro tempo que provavelmente já nem para garagem servia.

A demolição foi feita e curiosamente, a cidade de Lisboa continuo a pulsar como de costume e não consta que se tenha perdido sequer um turista motivado pela demolição daquele edifício.

O tema agora é a Pastelaria Suíça.

Estive lá há pouco tempo a fazer de turista e paguei como se estivesse em Zurique, na Suíça. Só para que conste, Zurique está no top10 das cidades mais caras do mundo e a Pastelaria Suíça coloca-se a par do seu nome no que toca a preços, mas só aos preços. A qualidade não foi fantástica e talvez por falar em português, não tenha recebido um atendimento que justifique o preço. E os interiores pareceram-me também um pouco degradados e decadentes.

Não senti que era coisa com história nem coisa moderna, nem sequer fina ou com requinte.

Podemos aqui debater a venda de todo um quarteirão a um único proprietário, os objectivos para o quarteirão, a estética que se tem aplicado na requalificação, agora a pastelaria em particular…

A questão prende-se coma história de 98 anos da dita pastelaria. Mas 98 anos não são 980 anos e ainda há gente viva com mais idade que a dita pastelaria. Não me parece que a dita tenha uma história mais relevante ou enriquecedora para a cidade do que a garagem demolida. É certo que está no epicentro da cidade e por isso vê muita coisa passar ao seu lado e no seu interior, mas não há nada ou muito pouco que se possa dizer que a dita tenha parte activa. Tem sido mais um participante passivo da história.

Repare-se que mesmo a história que se prende com os refugiados do Leste, não se prende com a pastelaria em particular, mas com a tabacaria ao lado que vendia jornais internacionais. A pastelaria apenas estava ali a jeito para se lerem as últimas da guerra.   

Finalizo com a parte inicial de um poema de Luís Vaz de Camões:

 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança:

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.

 

Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança:

Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem (se algum houve) as saudades.”